A história do Pit Bull trouxe mais uma vez ao de cima uma das principais caraterísticas dos portugueses, o célebre "agarrem-me senão eu mato-o". Do nada, e por nada entenda-se a morte de uma criança, surgiu uma vaga de indignados com opiniões para dar e vender sobre como deverá ser conduzido este caso e uma petição feita na web que, está bom de ver, vai mesmo sobrepor-se à legislação em vigor. Tudo a discorrer sobre crueldade humana e falta de compaixão com elevada moral, como se essa fosse a questão, enquanto apresentavam propostas mirabolantes, a esmagadora maioria das quais sem ponderar, a que título fosse, a sua praticabilidade ou custo.
Reeduque-se o cão, coloque-se o cão numa instituição adequada, um treinador pode adotar o cão, os pais é que são culpados. Extraordinário. Que bom para o cão. Nestes dias não li nada (eventualmente porque perdi a paciência e não li com atenção) sobre as condições humanas em que estas situações acontecem. Que, como aquela criança, milhares de outras crianças são educadas sem o mínimo de atenção adequada ou os cuidados parentais exigíveis. Que uma franja da população, eventualmente não tão franja assim, não tem as condições nem formação que lhes permita enfrentar a vida de outra forma ou assumir comportamentos que não estes. Mas alguém acredita que aqueles pais e muitos outros, todos aqueles imbecis que vemos passar na rua a brincar aos gangs americanos, alguma vez estarão preparados para levar a vida de outra forma? Se calhar também para isto podemos desatar a produzir legislação adequada e lançar petições, que tudo se resolverá!
Tanta iniciativa e movimento cívico e onde é que está a recolha de assinaturas para pressionar a revisão das leis? Ou a recolha de fundos para contratar juristas que efetivamente possam delinear a legislação em que acreditam? Onde estão os voluntários e o dinheiro para criar instituições que possam acolher estes animais?
Na verdade, o que tudo isto me faz lembrar é a história da Marie Antoinette, provavelmente falsa, segundo a qual ela dizia que se o povo tem fome e não tem pão, que coma bolos. É que a atender ao que ocupa o espírito de toda esta massa de indignados, se calhar quem tem mesmo razão é a Isabel Jonet, que antes de falar efetivamente faz, porque aparentemente nem todos estão a lidar com as mesmas preocupações. Toda esta indignação quando enfrentamos uma taxa de desemprego de 16,3%, mais de 1000 casas são entregues aos bancos todos os meses, cada vez mais famílias recorrem aos bancos alimentares para comerem, milhares de crianças comem a única refeição completa na escola, milhares de crianças não têm o material escolar adequado para estudarem, milhões de pessoas estão a perder a esperança no dia de amanhã. Foda-se, há crianças a telefonar para o "SOS Criança" preocupadas com a situação económica dos pais.
Quantos é que terão percebido que a personagem que dizia "falam, falam, mas não fazem nada", gozava com o país todo. E quando fazem, são manifs contra a troika e o desemprego ou petições fúteis. Portugal é um autocarro, onde as pessoas entram e dizem alto o que lhes apetece, sem qualquer consequência ou sentido de responsabilidade, cientes que quem está por perto ouve mas sabe que tudo fica na mesma, saindo na paragem seguinte enquanto dizem entre dentes "toma lá que já almoçaste".