Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sobre a delicadeza

Regra geral, vá-se lá saber porquê, não sou tido por um gajo delicado. Sim, não uso boxers com rendas, nem cremes para isto e para aquilo, mas não era bem a isso que me referia. Digamos que me falta algum filtro e, não sendo propriamente inconveniente, volta e meia lá me sai um comentário um bocadinho mais acutilante ou menos consensual. 

É mais ou menos nesse espirito, e até nem me parece que seja o pior exemplo, que quando uma conhecida já deu ou está para dar à luz, só para provocar, costumo perguntar se já rebentou. Pergunto às amigas e colegas e, obviamente, sou recebido com um coro de protestos, que normalmente começa por longos "ohhhhhh". Lá aquilo do é um momento tão bonito, único na vida de uma mulher, cria-se um laço para a vida, vocês os homens não conseguem perceber, e tretas dentro da mesma linha.

Acontece que quando falo com amigas que já, hmmmm... pariram(?) há muito tempo, sou confrontado com a realidade da história e todos os mitos vão para o galheiro, em troca de: não me apanham nessa merda outra vez; p*** que pariu as dores de costas e de parto; não tive uma noite decente desde os quatro meses;etc., etc. É mais ou menos como o mito das viagens de núpcias às Maldivas. Logo após a viagem, que sim, que é muito bonito, espetacular, o melhor sítio onde foram. Passados dois anos, que ideia estúpida, não se passa nada, só se faz praia, não há uma porra de uma laranja ou maçã em todo o país. Sendo assim, suponho que toda esta treta está na linha dos desejos de gravidez ou da TPM como pretexto para uma vez por mês nos lixarem a cabeça com tudo aquilo que normalmente não têm coragem para dizer e reprimem.

A verdade é que, para momento único, tenho bem a impressão que são os pais quem sai a ganhar, porque enquanto a mãe está meia atordoada pelo esforço e dores, a maioria das vezes ainda sobre o efeito da anestesia, os pais estão totalmente conscientes no momento em que pegam pela primeira vez nos filhos. E deixem-me dizer que sim, a expressão que lhes fica gravada na cara realmente mostra que aquele é um momento único na vida.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tenho fome!

Era isso que estava escrito no cartaz que um tipo carregava para a frente e para trás num semáforo sábado de manhã.

Ao longo dos últimos anos tenho desenvolvido uma perspetiva da raça humana em que basicamente nos vejo como macacos mais desenvolvidos. Simplesmente somos capazes de juntar mais paus e mais pedras. Recentemente voltei a lembrar-me disso porque, num evento cultural internacional, ao passar num corredor ouvi um autor a dizer "um livro é como uma casa onde somos convidados a entrar!", uma banalidade como outra qualquer, que já ouvi vários escritores debitarem com o ar mais profundo que conseguiram arranjar, enquanto a entrevistadora fica deslumbrada com a profundidade do interlocutor.

É por estas e por outras que, sobre as capacidades do homem, me gosto de lembrar das estratégias que algumas orcas utilizam para caçar focas. Na verdade, o mais importante até nem é como caçam, mas o facto de devolverem à praia todas as focas que capturaram e não querem comer.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Quase 9000 novos toxicodependentes nos centros de tratamento em 2012

In Público


Ora aí está um enigma. Tudo bem, eu percebo lá isso da crise económica, do desemprego, do desespero e da fuga à realidade. Mas, e não levem a mal a pergunta, porque estou mesmo curioso, se não arranjam dinheiro para ultrapassar os problemas, onde o arranjam para ultrapassar a realidade? 

É que eu até gostava de não ter percebido a notícia e que afinal de contas a crise até veio por bem, porque isto é gente que agora que já não consegue financiar a coisa resolveu dar a volta por cima e lá se apresentou nos centros de tratamento. Mas não, já li duas vezes e parece que estamos mesmo a falar de gente que no meio da merda em que já estava metida, achou que bom mesmo era começar agora a drogar-se, o que ao nível da estupidez, ainda consegue estar bastantes degraus acima daquela malta que começa a fumar aos trinta anos.

Suponho que humanamente não será de grande compaixão, mas não deixa de me chatear que se esteja a cortar em apoios sociais a quem muito precisa, a mim incomoda-me sempre as crianças e velhinhos desamparados, e se gaste dinheiro com isto. Lá para os treze anos tive uma professora de ciências que tinha uma filosofia interessante. Sempre que sabia que um amigo das filhas se drogava oferecia-lhe a janela de um sétimo andar.

sábado, 28 de setembro de 2013

O sentido da vida

Volta e meia dá-me para entrar num estado contemplativo e refletir sobre vida, de onde vimos e para onde vamos, o que normalmente resvala para coisas mais grandiosas, como a teoria do big bang e a singularidade, uma cabeça de alfinete onde a dado momento se concentrou toda a matéria e energia que compõe o universo, o que, está bom de ver, me provoca uma certa angustia adicional, porque se todo o nosso universo estava nessa cabeça de alfinete, afinal de contas onde raio estava a dita e quando foi isso, coisa suficiente para me deixar com reservas sobre os conceitos de espaço e tempo, que se calhar não passam de convenções e se assim é, a partir da próxima segunda-feira só apareço na empresa depois de almoço.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sabão macaco

Então é assim, um gajo vai ao dermatologista porque tem um bocadinho de dermatite, a ver se o tipo, supostamente uma barra, resolve a coisa definitivamente e, na volta do correio, ouve: lave sem sabão! Pior: lave menos ou nem lave!

Assim, sem espinhas nem pré-aviso. Pelos vistos, nós, a malta ocidental, esquece-se que a água da torneira já vem cheia de desinfectantes e, não contentes com isso, ainda espeta com geles de banho, tónicos, bálsamos e o que mais houver, basicamente rebentando com a barreira hidrolipídica da pele, foi o gajo que disse, não eu, e é um ver se te avias de vermelhidões, borbulhas e comichão. Parece que a natureza também pensou nisto e quanto mais porcarias pusermos, mais difícil é restaurar o equilíbrio. Se a pele precisar de produzir gordura, vai produzi-la, se não precisar, vai entreter-se com outra coisa qualquer.

Como a coisa me pareceu sensata e o tipo não deve estar numa cruzada contra a indústria cosmética, sou capaz de experimentar o conceito. Até encontrar a medida certa, não se surpreendam se ao chegarem ao blog encontrarem um bocadinho de sarro no ecrã...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Agências de viagens

Houve um tempo em que as agências de viagens quase não tinham computadores. Aquilo era gente que tinha de saber de cor a oferta, conhecer todos os hotéis, as diferenças entre uns e outros, ouvir o cliente e adequar a oferta. Pelos vistos esse foi o tempo dos meus pais.

No ano passado, eu e a Outra Metade decidimos que queríamos ir para as Caraíbas. Vai daí, lá visitamos duas agências de viagens e enviamos emails para mais algumas, onde na essência dizíamos: NÃO NOS QUEREMOS METER NUM AVIÃO, VOAR DURANTE OITO HORAS, PARA IR PARAR A QUARTEIRA. Trocado por miúdos, não queremos isto:
Não perceberam e a totalidade das ofertas que nos apresentaram eram, segundo as suas palavras, hotéis magníficos, cheios de atividade, discotecas e o que mais se conseguiram lembrar para obliterar a ideia de descanso. Vai daí, coube ao casal procurar a solução na internet e acabamos, algures na República Dominicana, aqui:
Sim, atrás das palmeiras está um hotel, que não recebe crianças, não tem animadores de praia, redes de voleibol, ou balizas de futebol. É verdade que havia por ali uma piscina com bar molhado, cheia de americanos e russos em alegre détente, mas onde fizemos questão de não entrar por várias razões, nomeadamente não termos a certeza da composição do líquido que compunha o meio aquático. É que aparentemente aquela gente não saia da água para coisa nenhuma.

Com a inocência que nos caracteriza, este ano lá ensaiamos nova tentativa junto das mesmas agências, que nos voltaram a apresentar propostas imbecis e disseram que já era impossível ir para o México, onde por sinal a Outra Metade quer muito ir (já eu não, porque basicamente acho os mexicanos feios e sujos, embora os possa estar a confundir com peruanos, e de qualquer forma há alguma probabilidade de estar a fazer uma generalização abusiva).

Aconteceu no entanto um milagre. O meu irmão disse-me que tinha marcado as férias no El Corte Inglês e que tinha gostado do atendimento. Já sem grande esperança, tentamos a nossa sorte e, para nossa surpresa, apareceu-nos pela frente alguém que realmente sabia do que estava a falar, que em muitos casos até conhecia os países, os hotéis, as praias. Vai daí, se tudo correr bem, daqui a quinze dias escrevo-vos daqui:
Suponho que nove horas dentro de um avião com espanhóis, que só falam espanhol, alto, é um pequeno preço a pagar.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Relógio biológico

No fim de semana passado tive uma reunião de família. Daquelas à séria, em que participam mais de cem pessoas e em que não fazemos a  mínima ideia de quem é mais de metade do pessoal. A coisa foi bem engraçada e fartei-me de ouvi falar com saudade do meu pai, o que é sempre bom.

Mas o que me traz aqui é outro assunto, a sacramental pergunta "e filhos?", que me permitiu chegar a uma conclusão reconfortante. É que se há alguns anos eu lia nos olhares dos interlocutores reprovação e balbuciava em resposta qualquer coisa na linha do "sabes como é, ainda não estão reunidas as condições...", à medida que o tempo passa, o que aqueles olhos me transmitem é inveja, ao estilo "filho da p..., como é? A malta aguenta com isto e tu queres andar ai no bem  bom e vir depois sacar-lhes a reforma?".

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Se eu não cuidar de mim...

Um gajo come de forma sensata, deita-se relativamente cedo, faz desporto, enfim, abdica de uma data de coisas que o fariam feliz, na procura de mais saúde e melhor qualidade de vida. Uma gaja come o que lhe apetece, deita-se quando calha e não faz quase desporto nenhum, ao abrigo da ideia “um dia de cada vez”. Quem é que tem os melhores valores de colesterol, quem é?

Pelos vistos não é só a vida que nos esfrega injustiças na cara, a natureza também tem uma ironia apurada. Se calhar o colesterol é influenciado pelo sentimento de culpa com que se come as coisas. Se é por aí, vou começar a comer tudo frito em óleo, mesmo a alface.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Das relações

O problema das relações relações entre homens e mulheres, para além do óbvio, uns são homens, outras são mulheres, está claramente nas expetativas.

No caso das mulheres, o mal é não perceberem que os homens são, basicamente, pavões. E não quero com isto dizer que somos todos uma cambada de bichas histéricas, sempre a dizer alto, enrolando a língua, “ó melher”, enquanto dobramos o braço e estendemos a mão virada para cima, com uma pochete a tiracolo. Dizia eu, somos pavões, porque, quando queremos conquistar uma mulher, não olhamos a meios para chamar a atenção e captar o interesse. Vai daí, abrimos em leque todas as penas, numa tentativa de ofuscar a concorrência e o que quer que esteja à volta. Ele é interesse por tudo o que ela diga, faça ou suspire, perguntas sobre o dia, o trabalho, a família, os vizinhos, o cão, gato, periquito e o que mais houver. São convites em série para jantar nos restaurantes da moda, engalanados com as melhores roupinhas e com pontualidade irrepreensível. A cereja no topo do bolo são, obviamente, as respostas a todas as mensagens e os telefonemas atendidos ao primeiro toque. Tudo isto iluminado por uma constante alegria de viver, que enjoa quem quer que passe por perto.

Mas quem é que no perfeito juízo acredita que um gajo, qualquer gajo que seja, mesmo que aposte a vida nisso, consegue manter o ritmo dias e dias a fio, sem quebrar ou falhar? Nem que seja por motivos práticos, porque, salvo a estatisticamente improvável hipótese de se tratar do herdeiro de uma grande fortuna, é previsível que o tipo tenha de trabalhar e certamente terá um orçamento finito.

Elas pagam na mesma moeda. Superproduções, nem que seja só para tomar um café na esquina, interesse por carros, motas, futebol, bilhar, sameirinha, berlinde, corridas de pigmeus montados em tartarugas, o que quer que seja para deixar a mensagem “sim, eu partilho os teus interesses". Pontualidade também irrepreensível, entenda-se cinco minutos de espera, que é para o gajo não pensar que estava colada à porta e um sorriso de orelha a orelha, ao vivo, ao telefone ou por mensagem. Sim, está tudo perfeito, o mundo é cor de rosa.

Qualquer imbecil que saiba somar um mais um, consegue perceber que o guarda roupa dela é finito e que lá para o, digamos, sexagésimo encontro, é previsível que a roupa se comece a repetir. Mas não, lá começa a malta a embirrar que antigamente é que era e que agora ela já não se preocupa puto com o que veste. E é só a ponta do icebergue, porque depois começam as tangas com a alimentação, estás mais gorda, mais magra e isto e aquilo.

Convém lembrar que esta treta toda começou com os gajos a ir à caça e elas a tomar conta do estaminé. Ele provia, ela organizava. Só no século XX é que se verificaram alterações significativas dos papéis do homem e da mulher na sociedade, com repercussões na forma como racionalizamos as relações, mas não necessariamente as sentimos, muito menos as intuímos. Quem acreditar que basta um século para mudar mecanismos emocionais e comportamentais desenvolvidos ao longo de milhões de anos está a preparar-se para uma desilusão. O que procuramos não é necessariamente o que precisamos e o que estamos disponíveis para dar não é necessariamente o que devíamos. E é assim que se instala a confusão, porque ninguém sabe o seu papel e anda tudo à procura de príncipes e princesas que, obviamente, se não quisermos ver, não existem. É lá aquela coisa da "bondade nos olhos de quem vê".

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Endireita #2

Afinal parece que não é magia ou qualquer espécie de clarividência. Pelos vistos, qualquer um pode afastar dois ossos que se estão inflamar mutuamente e ficar logo a sentir-se melhor. Foi o que o meu médico me disse enquanto passava a receita de Voltarem 75. Disse-me isso e para deixar de ser parvo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Coisas simples...


Afinal de contas onde começa e acaba o tempo e o espaço do universo? E antes e depois, o que é que há?

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ataraxia

(Ἀταραξία "tranquilidade") é um termo grego usado por Pirro e Epicuro para um estado mental caracterizado pela ausência de preocupação, acompanhada de lucidez (in Wikipedia).

No fundo isto deve ser mais ou menos parecido com aquela coisa de não sentir dor nas extremidades do corpo, mas mais conveniente, porque durante o dia é bem mais provável cruzar-me com alguns imbecis incompetentes, do que queimar-me num tacho ou em água a ferver. Mas isto sou eu que, convém notar, não sou cozinheiro.


domingo, 10 de março de 2013

Quem avisa, amigo é!

Agora que a blogosfera está prestes a explodir, qual mina anti-pessoal,  espalhando crianças por tudo o que é canto, fica aqui um conselho amigo. Aquilo que os putos ouvem hoje pode voltar para vos assombrar daqui a quinze anos, ao estilo fantasma dos natais passados, na forma de um quarto fechado, donde sai aos gritos Gangnam Style ou outra porcaria de igual calibre.

Nada temam, eu trago as más notícias, mas também a solução, anúncio o apocalipse e sou um anjo de esperança. Se começarem hoje por aqui:


Com jeito e alguma sorte, pode ser que acabem aqui:


Obviamente, como desconheço a qualidade do material genético que está na origem dos espécimes, declino qualquer responsabilidade pelo resultado final.

Trabalho é trabalho, Cognac é Cognac

Volta e meia fala-se da vocação profissional da Outra Metade, que se quisesse podia ter tirado medicina e coiso. Ela responde sempre que não, que não tem interesse nenhum na profissão e que detesta doentes, doenças, feridas e sangue. Até aqui nada contra.
Não percebo é porque que vê todos os episódios da "Anatomia de Grey" e calma e impassivelmente vai metendo estrelitas na boca, enquanto eu me encolho todo, encarquilho os dedos dos pés e ponho as mãos à frente dos olhos, durante uma cena em que alguém aparafusa uma orelha na cabeça de um gajo, volta a meter-lhe um olho na cara e escarafuncha o tórax à procura de um buraco no coração a bater. 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Equívocos da literatura

Meia noite e qualquer coisa.

Administrador - Bom, então se ninguém se opõe, as contas ficam aprovad...
Condómina - Um momento, eu queria falar da limpeza!
Administrador, calmamente - Sim, Sra. Dra., iremos já a esse ponto, que está na ordem de trabalhos. No ponto 4, iremos abordar vári...
Condómino - Olhe, voltando à água do poço, eu penso que isso não é boa solução.
Administrador - Sim, Sr. Dr., mas nós já decidimos que não iremos optar por essa solução.
Condómino- Ah! Sendo assim tudo bem.
Administrador - Dizia eu, no ponto 4...
...
Passados dez minutos - No ponto 6 pretende-se abordar a sit...
Condómina - Desculpe, o senhor disse que íamos falar da limpeza, é que toda a gente diz que a limpeza está pior.
Administrador, em tom apaziguador - Sim, Sr. Dra, já iremos falar disso.
Condómina - Mas o Sr. não está a falar, parece que pretende fugir do assunto.
Administrador - Está previso no ponto 8. Avançando. Estava...
Condómino- Olhe, mas aquilo da água do poço é legal? É que se não for eu não aprovo.
Administrador, algo desesperado, sem saber como não ofender - Sr. Dr., já se decidiu que não iriamos fazer nada.
Condómino - Muito bem.
...
Vinte minutos depois - no ponto 8 iremos abordar as reclamações da limpeza...
Condómina Sra. Dra. - Olhe, mas eu quero mesmo falar da limpeza!
Administrador a olhar para mim com ar incrédulo.
Condómino - Mas, ponha aí na ata que eu sou contra a água do poço.

Dante não fazia a mínima ideia do que era o inferno!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Igreja católica, o paradoxo

Tempos houve em que as comunidades eram pequenas, mal organizadas e espalhadas por territórios imensos. Na verdade os territórios não eram maiores que agora, mas aquilo era gente que andava a pé, o que altera a perceção das distâncias. Mais ou menos como quando um gajo se deita no sofá e só depois repara que a empregada deixou os comandos alinhadinhos e ordenados por cores mesmo ao lado do televisor. Aos homens cabia a tarefa de caçar, ainda ninguém comia fruta ou saladas, enquanto as mulheres, que ainda não trabalhavam, ficavam em casa sem fazer puto, só a tratar dos fedelhos, a limpar o pó, a desmanchar os animais caçados, a curtir as peles e, quando não tinham nada para fazer, a esmagar coisas com pedras e paus (o antepassado do crochet) enquanto tagarelavam. Os putos, que já então ficavam facilmente entediados, pintavam porcarias na parede para se entreterem (bonecos mal amanhados a caçar, elefantes com pelo...).

O homem primitivo não era parvo nenhum. Aquilo era gente que não picava ponto, passava a vida no passeio (no fundo o antepassado do delegado comercial) e viviam do que lhes aparecia pela frente. Lamentavelmente, por vezes o que lhes aparecia pela frente era um tigre dentes de sabre e do rescaldo dos encontros um ou outro ficava incapaz de alinhar nas próximas caçadas. Dizia eu, os tipos não eram nada parvos, talvez um tudo nada mais lentos, mas ao fim de vinte ou trinta mil anos lá toparam uma coincidência. Sempre que um gajo ferido ficava pela gruta, passados mais ou menos nove meses aparecia mais um puto.

A coisa foi andando, até que um tipo se chateou com a brincadeira, porque já ia no segundo filho e nunca tinha chegado perto da mulher. Sempre que tentava ela dizia-lhe que estava de esperanças e ele perdia as dele. Bom, o certo é que um belo dia o tipo teve uma ideia que lhe pareceu genial, levantou-se, disse que ia comprar tabaco e saiu. Passado um bocado apareceu com duas tábuas nas mãos, ainda sujas de tinta. Ai e tal, são as tábuas da lei de deus, com os dez mandamentos, isto é do melhor, ora vejam.

A malta lá começou a ler, enquanto tecia comentários.
- Muito bom isto de santificar deus ao sábado! Então é só repetir umas lengalengas, levantar e sentar umas quantas vezes e não se faz puto ao sábado é?
- Sim, sim. Mas continuem a ler.
- Olha, este também é catita. Honrar o teu pai e a tua mãe. O meu pai está quase a fazer anos, vem mesmo a calhar.
- Lê essa merda!
- Não roubarás? Agora? Ainda ontem me fanaram a carteira na feira e agora é que apareces com isto?
- Dá cá isso, eu leio. Não cobiçarás a mulher do próximo, nem o seu servo, nem a sua serva! Ouviste?
- Ouvi pá e isso é uma maçada.
- Hã?
 Aquele pretinho que o Isaac agora lá tem é bem jeitoso.
- Hã?

E é este o pilar da religião, uma variação do bicho papão para as crianças que não comem a sopa, lá aquilo do "amigo imaginário para adultos". Dada a precariedade das forças policiais e dos sistemas judiciais do seu tempo, o Homem inventou religiões para regular as práticas e costumes da sociedade e deuses que tudo viam, castigando as faltas e pecados, como fazer filhos com as mulheres dos outros. Com inegável ironia, três mil e tal anos depois temos de reforçar as forças policiais e os sistemas judiciais para evitar que a igreja católica se meta com os filhos dos outros.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sweet thirteen

As crianças são o futuro, o amanhã e coiso, o que até é muito bonito, não fosse o caso de crescerem e tornarem-se adolescentes. Tenho a certeza que na origem da espécie humana existiram exemplares que passaram diretamente dos três para os dezoito anos mas, por ironia da natureza, o processo de seleção natural obriga a que a malta treine algumas competências, nomeadamente aquelas que levam à reprodução, pelo que só vingavam os que passavam pela fase da parvalheira.

Aparentemente, no entanto, o mesmo processo de seleção não tem como requisito a saída da dita fase, porque só assim se compreende que alguém se tivesse lembrado que era boa ideia dar uma festa para adolescentes na sala do condomínio, superando-se ao deixar a coisa correr noite dentro.

E é assim que ontem à noite eu e a Outra Metade estamos a entrar para a garagem e vemos uma chusma de putos espalhados pelos jardins do condomínio, já de si um mau augúrio, claramente à procura de estímulos para combater o tédio...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Semedo acusa Governo de fazer declaração de guerra aos portugueses

In Público

Tenho a leve suspeita que para além de mim, ainda devem andar por aí muitos portugueses que não deixam de esboçar um sorriso quando se fala da crise. Não que para mim esteja tudo na mesma, porque obviamente também senti a subida de impostos e vejo o futuro com alguma apreensão, mas para já, daqui donde escrevo, vive-se melhor do que nos últimos anos do Sócrates.

Quando a banca foi para o galheiro e com ela o financiamento das famílias, tive a certeza que o consumo ia cair a pique, levando atrás os preços, que isto das leis económicas, no caso a da oferta e da procura, são tão naturais como a água e não precisam de nenhuma policia ou tribunal para serem aplicadas. E foi isso mesmo que aconteceu, em especial no último ano, tanto nos preços base, como através de promoções ao estilo, o senhor é o primeiro Cliente a entrar na loja com o seu número de cartão de cidadão. Hoje estive a limpar o spam do email e as oportunidades que aparecem são extraordinárias, tanto na roupa, como na eletrónica e eletrodomésticos, até aos restaurantes, viagens ou carros.

Mas se os preços são interessantes, verdadeiramente revolucionário é a mudança na  qualidade de serviço, lá aquela coisa do compre qualquer coisa e por favor volte cá o quanto antes, que em Portugal foi sempre pouco melhor que miserável. Aparentemente foi necessária esta crise para a maior parte dos empregados, seja do que for, finalmente perceberem que o patrão é o Cliente e não dono e que sem Clientes não há salário. É que pelo meu lado, que até nem sou de me deixar impressionar pela falta de educação e não me atrapalho para deixar claro o que pretendo, já andava farto de ter de desmistificar a ideia que não me estavam a fazer um favor por me atenderem.

Se eu fosse mais inocente, era gajo para acreditar que alguma coisa de bom ficaria desta crise, mas a experiência diz-me que mal isto alivie volta tudo à primeira forma, que no fundo é o que fazemos desde mil quinhentos e picos, viver à custa do que não temos e armar em mais importante do que o que somos.


sábado, 26 de janeiro de 2013

O amor não escolhe idade e pelos visto o ódio também não

Ontem, eu e a Outra Metade resolvemos fazer um jantar mais aprimorado. Fazer é como quem diz, porque não fazemos a mínima ideia de quem o fez, jantamos fora, por acaso no restaurante onde a levei a primeira vez, que até é bem catita, não fosse o caso de ser frequentado por malta que em média deve ter o dobro da idade dela. Adiante, calhou-nos uma mesa exatamente ao lado da que ficamos da primeira vez, desta vez ocupada por um casal de idosos, na casa dos seus setenta anos, o que me pareceu enternecedor e até profético.

Acontece que a dada altura comecei a estranhar o silêncio na mesa deles. Lá pensei "bem, ao fim de tantos anos se calhar já não têm nada para dizer". A coisa foi andando, nós estávamos animaditos, até que ouvi "eu não preciso do seu dinheiro. Era o que mais faltava, agora tenho muito mais dinheiro do que você". Como não ouvi claramente, dei espaço a que tivesse ouvido mal, até que ela diz "porque o único homem que amei foi o XXXX, que me enchia de carinho e era um amante ferveroso. Pena só lhe ter dito que gostava dele, quando ele já estava casado há muito tempo". Por pouco a Outra Metade não ficou coberta com o folhado de bacalhau que eu mastigava satisfeitíssimo da vida.

A partir daqui foi sempre a descer para ele, a subir para nós, que tivemos direito a jantar com espetáculo, pelo mesmo preço. É que a coisa teve detalhes do género "pois porque você dava tudo à sua mulher, não admira que ela o chamasse paizinho", "quantas amantes teve?", "e a esta também lhe dá tudo", "agora não tem nada, até teve de vender o Porsche". Concluindo, ainda estou para saber se a senhora era a mulher despeitada, a amante despeitada, a irmã invejosa ou um engate na terceira idade.

Lamentavelmente não sei o que o tipo estaria a pensar, porque ele efetivamente não dava troco. Suponho que a coisa girava entre "fala para aí, que as memórias ninguém mas tira" ou "fui um burro do caraças, não precisava de estar agora nesta situação". Por outro lado, podia também ser "nunca mais te calas, para te levar a casa, que brasileira já está à minha espera com o champanhe a gelar".

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

António José Seguro está disponível para ser alternativa ao Governo.

In Público

"Mais vale um salto no desconhecido que a certeza do insólito"

Isto foi-me dito por um colega, quando soube que eu ia mudar de empresa e descrevia exatamente o que vivíamos às mãos de uma diretora completamente alucinada (como é que se apaga da memória a conversa em que nos diz que na casa nova, a casa de banho vai ser dentro do quarto, sanita incluída?).

Bom, a verdade é que a decisão tomada na altura está entre as melhores da minha vida mas, infelizmente, não me parece que se possa aplicar ao momento atual do país. É que entre o Pedro Passos Coelho e o  António José Seguro parece-me que a diferença está entre a sanita no quarto ou na sala de estar. E se assim é, sempre nos poupamos a maiores vergonhas públicas.