sábado, 4 de maio de 2013

Economia para totós

Nos últimos meses tenho utilizado o blog para falar da crise, quase sempre no gozo ou pelo menos a tentar a ironia. Dizer mal não custa nada e sempre provoca alguns sorrisos fáceis, mas acontece que o tempo passa e o assunto vai perdendo piada, se é que alguma vez teve, tornando-se cada vez mais trágico. Não tanto pessoalmente, porque felizmente ainda quase não senti a crise, embora esteja certo que chegará a minha hora, mas pela catástrofe que vejo desenrolar-se ao meu redor. Portugal está a desmoronar-se, pedra atrás de pedra, num processo aparentemente inexorável, que ninguém parece conseguir ou querer pôr cobro.

Temos um governo que não tem a mínima, melhor dizendo, nenhuma competência para gerir o destino do país no momento que vivemos, provavelmente qualquer momento que seja, porque simplesmente não compreende o que está a acontecer. Fomos entregues a alguém que não aprendeu que o conceito ceteris paribus é meramente académico e não se aplica à realidade, algo que um estudante de economia aprende logo no primeiro ano do curso. Significa "se tudo o resto se mantiver igual".

Para aqueles que não têm formação económica, explico rapidamente. Por exemplo, se nada mudar, o ministro das finanças acredita que reduzir a duração do subsídio de desemprego aliviará as finanças públicas.  E se nada mudasse, isso era verdade. O problema é que no exato momento em que se concretiza o corte do subsídio, as pessoas deixam de comprar bens e serviços, se deixam de comprar bens e serviços, as empresas deixam de os vender, se os deixam de vender, têm de despedir pessoas, essas pessoas vão ter direito a subsídio de desemprego, logo vão sobrecarregar as finanças públicas. O ministro das finanças é incapaz de compreender esta dinâmica, provavelmente porque estava habituado a escrever equações num quadro, onde só mudavam as variáveis que ele queria. No fundo o homem até pode saber economia a pacotes, leia-se saber no sentido em que é capaz de debitar conceitos para uma sala de aula, mas infelizmente não os compreende.

Temos assim um governo que não consegue apreender o que está a acontecer e justifica os sucessivos falhanços com a nossa falta de compreensão e empenho, porque obstinadamente defende que é a iniciativa privada quem tem de acreditar e investir, não obstante o marasmo económico em que estamos enredados. Um governo que cria estímulos à economia pelo lado da produção, quando claramente o problema está do lado da procura, arrastando-nos para uma catástrofe, talvez sem exemplo na nossa história.

Este governo é um carrasco do futuro do país e da esperança de gerações. E se calhar, para quem ainda quase não sofreu na pele os efeitos da crise, é mesmo isso que dói. Ao longo da minha vida já passei por várias crises, mas nunca como agora houve tanta informação para vermos o que está a acontecer. Ver famílias desfeitas, sonhos despedaçados, gerações desperdiçadas, amputadas do futuro a que têm direito é doloroso, especialmente por saber que será em vão e que não precisava de ser assim.

2 comentários:

Vicky disse...

Ontem, mais um serão, com um nó na garganta e uma dor no coração.

RCA disse...

Suponho que isto agora já é uma questão de fé!