sexta-feira, 29 de março de 2013

O endireita

Há quase duas semanas que ando com dores nos dois polegares. Suponho que será uma tendinite e a coisa não há maneira de passar. Hoje, ao tentar comprar na farmácia uma mão elástica, o farmacêutico perguntou-me porque é que não ia ao endireita. A pergunta apanhou-me desprevenido, porque nunca me passou pela cabeça que da medicina tradicional viesse essa sugestão, nem eu sou dado a grandes devaneios. O que é certo é que depois de darem alguns exemplos de tendinites resolvidas pelo homem, a filhos, amigos e aos próprios, lá fui eu dar o corpo ao manifesto, no caso, as mãos. 

E a verdade é que nem que seja pela experiência , a coisa valeu a a pena. O Homem só atende com marcação prévia e nem vale a pena tentar de outra forma. Um tipo dirige-se a uma ilha de pescadores em plena Foz do Porto e aguarda a sua vez num coberto, rodeado de roupa estendida, armadilhas para polvos e outros artefatos de pesca. Enquanto esperamos, ouvimos os queixumes dos restantes "pacientes", tal qual as salas de espera de qualquer médico. De dentro do "consultório" vêm gemidos, lamentos, gritos e vozes de comando, seguidos de silêncios suspeitos, que nos despertam a dúvida se alguma manobra não terá corrido pior e agora têm nas mãos um tetraplégico, sem saber o que fazer com o corpo. Depois, lá se abre a porta, donde emerge mais um paciente satisfeito, espelhando na cara a liberdade do sofrimento e a gratidão pelo espinho retirado da pata. 

Ainda antes da minha vez assisti à "reparação" das costas de um amigo. Apenas com a passagem dos dedos o Homem soube em que posição é que ele vê televisão e para que lado inclina a cabeça quando adormece no sofá. A mim, mandou-me sentar e pediu-me a mão esquerda, que estendi a medo. Foi manipulando dos diferentes dedos, até que se imobilizou no polegar. Pressionou em vários pontos, torceu para um lado, para o outro, enquanto falava de caçadas. Dobrou  o dedo e esticou-o repentinamente. Clac! Ouviu-se o sacramental estalido e a minha cara iluminou-se imediatamente com um sorriso provocado pelo alívio instantâneo.

Como raio é que um pescador sabe qual a posição natural dos ossos, músculos, tendões e como voltar a pô-los no sítio, a partir de um anexo da sua casa, sem cobrar nada, aceitando o que de bom grado lhe seja dado. Tudo isto é extraordinário, quase mágico, e deixa-nos efetivamente a pensar numa outra via, que não passa por raios-x, ressonâncias magnéticas ou TACs, muito menos cirurgias. Provavelmente, em vez de saber, é muito mais importante sentir e compreender.

7 comentários:

MisS disse...

Foi a tua primeira vez num endireita?? Como é que se passa uma infância normal sem nunca experimentar um endireita?

RCA disse...

Que dizes, processo a minha mãe por maus tratos e abuso infantil?

Pedro disse...

Amanhã vais estar na mesma ou pior, acredita. Não sei se sabes mas há fisioterapeutas que sabem o que fazem e que de pesca talvez não saibam nada.

MisS disse...

Hum, és capaz de não ter caso para sustentar a acusação de maus tratos ou abuso mas, negligência certamente. Toda a gente sabe que braços, pernas mãos e pés desmanchados é no endireita e não no hospital! Se precisares de uma testemunha eu vou. ;)

RCA disse...

Tomé, Tom... Pedro, sempre um cético. Tu não estás a perceber bem a coisa.

Rubina Pacheco disse...

Sera que alguem sabe o numero ou como entrar em contacto com o endireita xavier

Rubina Pacheco disse...

Sera que alguem sabe o numero ou como entrar em contacto com o endireita xavier