segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Portugal, um país de moral elevada

A história do Pit Bull trouxe mais uma vez ao de cima uma das principais caraterísticas dos portugueses, o célebre "agarrem-me senão eu mato-o". Do nada, e por nada entenda-se a morte de uma criança, surgiu uma vaga de indignados com opiniões para dar e vender sobre como deverá ser conduzido este caso e uma petição feita na web que, está bom de ver, vai mesmo sobrepor-se à legislação em vigor. Tudo a discorrer sobre crueldade humana e falta de compaixão com elevada moral, como se essa fosse a questão, enquanto apresentavam propostas mirabolantes, a esmagadora maioria das quais sem ponderar, a que título fosse, a sua praticabilidade ou custo.

Reeduque-se o cão, coloque-se o cão numa instituição adequada, um treinador pode adotar o cão, os pais é que são culpados. Extraordinário. Que bom para o cão. Nestes dias não li nada (eventualmente porque perdi a paciência e não li com atenção) sobre as condições humanas em que estas situações acontecem. Que, como aquela criança, milhares de outras crianças são educadas sem o mínimo de atenção adequada ou  os cuidados parentais exigíveis. Que uma franja da população, eventualmente não tão franja assim, não tem as condições nem formação que lhes permita enfrentar a vida de outra forma ou assumir comportamentos que não estes. Mas alguém acredita que aqueles pais e muitos outros, todos aqueles imbecis que vemos passar na rua a brincar aos gangs americanos, alguma vez estarão preparados para levar a vida de outra forma? Se calhar também para isto podemos desatar a produzir legislação adequada e lançar petições, que tudo se resolverá!

Tanta iniciativa e movimento cívico e onde é que está a recolha de assinaturas para pressionar a revisão das leis? Ou a recolha de fundos para contratar juristas que efetivamente possam delinear a legislação em que acreditam? Onde estão os voluntários e o dinheiro para criar instituições que possam acolher estes animais?

Na verdade, o que tudo isto me faz lembrar é a história da Marie Antoinette, provavelmente falsa, segundo a qual ela dizia que se o povo tem fome e não tem pão, que coma bolos. É que a atender ao que ocupa o espírito de toda esta massa de indignados, se calhar quem tem mesmo razão é a Isabel Jonet, que antes de falar efetivamente faz, porque aparentemente nem todos estão a lidar com as mesmas preocupações. Toda esta indignação quando enfrentamos uma taxa de desemprego de 16,3%, mais de 1000 casas são entregues aos bancos todos os meses, cada vez mais famílias recorrem aos bancos alimentares para comerem, milhares de crianças comem a única refeição completa na escola, milhares de crianças não têm o material escolar adequado para estudarem, milhões de pessoas estão a perder a esperança no dia de amanhã. Foda-se, há crianças a telefonar para o "SOS Criança" preocupadas com a situação económica dos pais.

Quantos é que terão percebido que a personagem que dizia "falam, falam, mas não fazem nada", gozava com o país todo. E quando fazem, são manifs contra a troika e o desemprego ou petições fúteis. Portugal é um autocarro, onde as pessoas entram e dizem alto o que lhes apetece, sem qualquer consequência ou sentido de responsabilidade, cientes que quem está por perto ouve mas sabe que tudo fica na mesma, saindo na paragem seguinte enquanto dizem entre dentes "toma lá que já almoçaste".

9 comentários:

Maria Costa disse...

Grande post. Aplaudo e se me permite até mando um beijo.

MisS disse...

Eu já li no facebook de alguém que o bebé morreu de traumatismo "ucranio" e por isso não cão não tem culpa!!! Embora me revolte a prostração da sociedade civil portuguesa perante a situação que vivemos, quando me deparo com pérolas destas acho que o melhor é mesmo que estejam quietos e calados, só para não piorar o que já de si é mau...

kiss me disse...

Grande post sim senhor!

E também mando um beijo.

("traumatismo ucraniano" é das melhores pérolas de sempre)

Anónimo disse...

Concordo inteiramente contigo. tanta gente a passar fome e querem gastar dinheiro a reabilitar um cão que matou uma pessoa. Não temos problemas maiores? Não há mais paciência.

Carlos Abreu

Ana Magalhaes disse...

A idade das trevas voltou. Como existe crise, entramos em lei marcial e corta-se a direito.
Palmas.

Ana Magalhaes disse...

Ah! Há uns tempos uns tarados arrastaram um cão quase o matando ou mesmo matando que mais não soube dele. Provavelmente deve-se a crise, ao desemprego e a falta de acesso a cuidados de saúde e coiso!
É isso.

RCA disse...

Lamentavelmente, não percebi o que é que o cão arrastado tem a ver com esta situação, provavelmente porque sou uma pessoa básica, sem moral e desumana.

De qualquer modo, este caso não tem nada a ver com isso, porque com crise ou sem ela, mata-se qualquer cão que mate um ser humano.

E sim, como existe crise, corta-se a direito, porque antes deste cão, ou de outro qualquer, há pessoas em condições, não sei como dizer... ah, já sei... DESUMANAS.

Pedro disse...

Quem é vivo sempre aparece. Julgavam que se iam ver livres de mim? Nem pensar. Infelizmente tive um fim de ano e princípio de 2013 aflitivo mas felizmente as minhas mulheres já se encontram bem. E é por isso que estou a comentar este post, por sinal muito bom. Depois de quase ter perdido a minha filha que ainda não conheço mas que já amo duma maneira que não pensava que era possível, depois de passar 15 dias num hospital onde só vi desgraças, incluindo pais a per der filhos, ainda se fala no abate dum cão perigoso que MATOU uma CRIANÇA? Tenho um cão, um labrador com 6 anos que adoro que não faz mal a uma mosca mas mesmo assim irei ter todos os cuidados quando a minha filha nascer, por isso esses pais também têm que ser culpados pelo que aconteceu, por ter um cão desses em casa.É como ter uma arma ao alcance da criança.Deixem-se de moralismos, de hipocrisias quando são capazes de dar um pontapé a um cão vadio só com medo de apanhar uma pulga.Morreu uma criança sem culpa nenhuma,porra.

RCA disse...

É lá... bons olhos te leiam.
Espero que já esteja tudo bem e essa fase difícil ultrapassada.
Um abraço